Acordei
atrasada. O treinamento para se tornar gatuna começava daqui a vinte minutos, e
eu demoro bastante para chegar ao local, pois tenho que fugir dos guardas da
cidade. Olhei pela janela do meu quarto e vi Morroc, completamente destruída.
Toda aquela destruição fazia com que a cidade ganhasse um ar pesado. “Aquele maldito vai pagar por isso” pensei
comigo. Satan Morroc, um monstro de aparência horrível e incrivelmente
poderoso, renasceu e destruiu a cidade que estava começando a morar.
Bem,
não tinha tempo para rodeios. Chequei as rotas dos guardas oficiais da cidade
no mapa e olhei para fora. Não vi guarda algum. “Realmente, hoje é meu dia de sorte” pensei de novo. Coloquei minha
roupa mais uma capa para esconder meu rosto, saí da estalagem e fui correndo
para as pirâmides, onde ficava a Guilda de Gatunos. Passei pelo labirinto, já
bem conhecido por mim e desviando dos ataques dos familiares que viviam por lá.
Na entrada
da Guilda vi algumas pessoas entrando. “Deve
ser os outros novatos” pensei. Entrei na parte onde ficava a administração.
Mal entrando no local, não via ninguém e senti uma batida forte na minha nuca,
tudo começou a ficar escuro e comecei a perder meus sentidos. Lutei para ficar
acordada, mas me deram outra batida nas costa e desmaiei.
Quando
acordei, estava amarrada, sem a capa e ainda na administração da Guilda. Não
estava muito escuro, mas pude ver o pessoal responsável pelos novatos, os
novatos (ambos desacordados) e as pessoas que estavam conversando na minha
frente. Eram os guardas. Devem ter seguido um dos novatos até aqui. Mas como
chegaram até aqui não é importante. O que importa é que eu tenho que ajudar o
pessoal da Guilda. Droga, justo hoje que eu iria me tornar gatuna.
Mesmo
ainda estando um pouco mal por causa das batidas que me deram, olhei para trás
e vi que estava amarrada com cordas e que não tinham me revistado. Ótimo, esses
guardas são uns idiotas mesmo! Tirei meu estilete do bolso da minha calça e
comecei a cortar a corda. Os guardinhas estavam tão distraídos que nem precisei
fingir que ainda estava desacordada. Tinha apenas dois guardas na pequena sala.
O resto poderia estar do lado de fora, procurando outros trabalhadores da
Guilda.
“Dois guardas? Isso é fácil. Só não posso
fazer muito barulho.”
Depois
que me soltei, acordei silenciosamente um dos gatunos que estava do meu lado. Desamarrei-o
e expliquei com gestos o que eu pretendia fazer com os guardas. O garoto
concordou e pegou uma das cordas que eu havia cortado. A ação foi mais que
rápida: Eu e o gatuno amordaçamos os guardas para que não falassem alto e logo
demos um soco no rosto de cada um, para ficarem desacordados.
Depois
da rápida ação, tiramos o pessoal da Guilda e acordei cada um deles. Ficaram
assustados com a situação nunca vista e enquanto se arrumavam e recuperavam,
peguei meu estilete e abri cuidadosamente a porta para ver se os guardas estavam
ali. Olhei por todos os lados, não vi ninguém. A porta da frente, onde ficava o
estoque de veneno e areia especial dos gatunos estava fechada. Não consegui
ouvir nada vindo dali, mas também não tinham provas que os guardas não estariam
ali. A porta que dava para o subsolo da pirâmide também estava fechada e
trancada. Eu sabia disso por causa do enorme cadeado com senha (e provavelmente
com um lugar de chave para abrir aquilo) trancando a porta feita de pura pedra
envolta em magia.
Depois,
abri um pouco mais para olhar para o corredor que ia para a entrada do hall da
Guilda. Porta fechada também. “Isso é
bom, temos uma circulação livre aqui no hall” pensei. Uma voz sussurrada me
fez fechar a porta e prestar atenção no garoto que eu havia acordado por
primeiro:
-Então,
qual a nossa situação? – Ele estava do meu lado, tentando ver além da porta
também.
-Bem,
acho que podemos circular livremente pelo hall, mas todas as portas estão
fechadas, inclusive a do quarto da frente, mas não tenho certeza se os guardas
podem estar ali. Temos que ir verificar. – Falei lentamente e sussurrando,
tomando cuidado para ouvir algum guarda vir para o local onde estávamos.
-Então
temos que ir armados. Ah, muito obrigado por antes. Eu sou Andrew Bradley, mas
pode me chamar de Andy. Você é...?
-Amaya
Haru. Mas me chame só de Aya. – Os olhos cor de ametista bruta dele brilharam quando falei
meu nome completamente diferente e contraditório.
-Nome
diferente. O que significa?
-Bem,
“Amaya” é noite com chuva, enquanto “Haru” é sol. Contraditório, não é? Ah, e “Aya”
vem da língua de um povo antigo que protegia a grande yggdrasil e significa “Eu”.
-Sim,
contraditório; mas bonito. – Meu coração pulsou um pouco mais forte e eu corei.
Foi a primeira vez que alguém havia elogiado meu nome.
Respirei
fundo e disse:
-Obrigada.
Como os outros estão? Acho que vamos precisar da ajuda deles para tirar esses
guardas daqui.
-Eles
estão se recuperando bem. Vou falar com eles para esclarecer nossa situação e
pedir ajuda também. – Assenti e depois Andy saiu andando e começou a falar com
os novatos e gatunos.
Enquanto
esperava a resposta do pessoal fiquei vigiando o lado de fora pela fresta da
porta...
“Estamos
ferrados.”